Adeus a um navegante das letras brasileiras

Estive com o professor João Adolfo Hansen em quatro ocasiões. Três visitas durante a gravação de uma agradabilíssima conversa e de uma sessão de fotografias para o livro “Arte da aula”, concebido e realizado por mim, Joaci Pereira Furtado e a fotógrafa Maria do Carmo Bérgamo de Oliveira, publicado pela editora Sesc, em 2019. A quarta vez que estive com ele foi para conversarmos sobre a introdução que ele escreveu para a reedição da “Divina Comédia”, de Dante, pelas editoras Ateliê e Editora da Unicamp. Em todos esses encontros, descobri uma pessoa afável, gentil, bem-humorada, de ótima capacidade de conversar e de uma erudição professoral extraordinária. Fui aluno dele antes pelos livros, depois na sala de aula, nas palestras e nas lives.
O primeiro texto que li foi a introdução ao livro “Teatro do sacramento”, de Alcir Pécora, cuja síntese inteligente o professor anuncia desde a epígrafe “Ir a Jerusalém caminhando para Emaús”, complementada no corpo do argumento nas palavras do Padre Vieira: “Levar-nos a seus intentos pelos nossos caminhos” (Sermão da Primeira Oitava da Páscoa, V. XIV, p. 61). Ele mesmo sugerindo o sutil percurso que realiza no trabalho como professor e como ensaísta. Interessado em continuar no esforço de compreender algo mais dos sermões de Vieira, li na revista Discurso o artigo “Vieira, estilo do céu, xadrez de palavras”, de 1979, uma antecipação de parte do que estaria em jogo nos argumentos e discussões do “Teatro do sacramento”, retórica e política nos sermões.
Li na sequência a tese do professor Hansen publicada em 1989 pela Cia das Letras, “A sátira e o engenho: Gregório de Matos e a Bahia do séc. 17”. Nada do que poderia supor sobre Gregório de Matos apenas com as poucas aulas na escola e com as histórias da literatura brasileira que tinha lido sobreviveria depois da minuciosa reconstituição literária e cultural da Bahia no século 17 — e das análises da poesia satírica do poeta desmistificado e descaricaturizado no livro.
Na chave dos estudos dos fundamentos do prisma crítico adotados pelo professor, li com especial interesse e gosto o livro “Alegoria: construção e interpretação da metáfora”, na edição de 2006. Extraí algumas consequências desse livro em combinação com os ensaios “Categorias epidíticas da ekphrasis”, de 2006, publicado na revista USP, e do ensaio sobre Camões, do livro “Poetas que pensaram o mundo”. Extraí sugestões de balizas para críticos e leitores em formação, foram notas tomadas como curiosidade e apenas para meu uso pessoal de estudo e de leitura:
Domínio de múltiplos e variados vocabulários; definição de opções de abordagens críticas adequadas a cada contexto discursivo; saber abrir mão do próprio imaginário; saber apreender o sentido das e nas ordens sintáticas; saber que o texto tende a forjar seu próprio leitor oferecendo orientações de leitura; dominar variados repertórios de informação, esquemas de ação verbal e preceitos técnicos dos gêneros; conhecer normas de regulação social de cada tempo, informações factuais, referências poéticas, versos e personagens, por exemplo, de Homero, Virgílio, Ovídio, Horácio, Boiardo, Ariosto etc, referências mitológicas, deuses olímpicos, ninfas aquáticas e seus atributos e referências filosóficas, teológicas, éticas, hagiográficas, categorias e classificações que remetem a leitura para os sistemas simbólicos de várias tradições transformadas metaforicamente no texto; saber construir hipóteses por meio de procedimentos de seleção, redução, equivalência, tradução e contextualização dos significados dos termos relacionados em sequência; formular hipóteses sobre a relação horizontal ou presente dos termos; sobre as relações deles com referências ausentes, imitadas, citadas, estilizadas ou parodiadas pelo autor; preencher os vazios semânticos que se produzem na justaposição e na distância dos termos e também no estilo sublime, nas referências a poetas, filósofos, historiadores, geômetras e astrônomos antigos etc.; orientar-se pela maneira da invenção da forma, enfim, entendendo a forma como produto artificioso de um ato de fingir ordenado por preceitos miméticos do gênero que transformam, por exemplo, a matéria histórica; reconstituir essa estrutura fundamental determinada pelo gênero; refazer as associações da sua liberdade de leitor sempre limitada pelas regras dessa estrutura; encontrar a estrutura básica do texto, em qualquer leitura, por definição variável, que permite justamente a comunicação do ato da sua invenção com a sua leitura; compreender que a significação do texto de ficção não se esgota na interpretação temporalmente variável dele.
Como é possível notar, um professor e tanto, João Adolfo Hansen combinou a capacidade de pesquisa, a extensa erudição, o senso de proporções na convivência, a generosidade no ofício, a coragem do posicionamento autêntico e da intervenção intelectual e uma imaginação sem peias. Até nesse momento de tristeza, o professor Hansen parece aprender e ensina emulando as ideias de um dos autores que tanto estudou: “as artes ou ciências práticas não se aprendem só especulando, senão exercendo. Como se aprende a escrever? Escrevendo. Como se aprende a esgrimir? Esgrimindo. Como se aprende a navegar? Navegando. Assim também se há de aprender a morrer, não só meditando, mas morrendo. (…) saber morrer é a maior façanha.” (Antonio Vieira, “Segundo sermão de quarta-feira de cinza”. Apud Alcir Pécora “Vieira e a arte de morrer, 1994).
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