Irã: Um olhar para além das névoas da guerra

Khaled Muhassan em entrevista a Thiago Gama
Enquanto as chancelarias do Norte Global se perdem em uma retórica vazia e os analistas tentam aplicar fórmulas obsoletas de 1945 a um mundo que já não lhes pertence, o real pulsa com uma urgência ensurdecedora no Oeste da Ásia. A chamada Operação Fúria Épica no Irã não é apenas um evento tático; é o desmoronamento físico final das instituições que o Ocidente insiste em chamar de “ordem internacional”.

Diante dessa cegueira deliberada, a interpretação dos fatos exige mais do que títulos acadêmicos: exige a cicatriz da história e o rigor de quem não se deixa seduzir pela abstração financeira das commodities financeiras em decadência.
Neste momento de ruptura tectônica, Outras Palavras entrevista a figura de Khaled Muhassan. O professor Muhassan não é um observador passivo dos eventos; ele é a própria memória e a consciência crítica do Levante. Veterano presidente do Sindicato dos Professores do Ensino Médio do Líbano, ele é o elo inquebrantável com a tradição combativa dos Cadernos do Terceiro Mundo e de Neiva Moreira. Sua autoridade não provém apenas da cátedra, mas da dignidade de quem atravessou o fogo — tendo perdido um irmão mártir na invasão de 1982 — e da interlocução profunda e fraternal com a professora Beatriz Bissio, de quem é parceiro intelectual há décadas.
Somente Muhassan, com seu olhar forjado na resistência e na “paciência persa”, possui a lente capaz de enxergar através da névoa de guerra. Enquanto outros tateiam no escuro, ele decifra o fim da hegemonia do dólar e a desmoralização definitiva das bases militares estadunidenses como movimentos de um destino manifesto do Sul Global. Sua voz é o grito de quem sabe que a causa palestina é a causa da humanidade e que o Irã, ao não se ajoelhar, está apenas redigindo o prólogo de um mundo que já é multipolar.
Em 24 de julho de 2024 Yigal Palmor, então porta-voz do Ministério das Relações Exteriores de Israel, disse sobre o Brasil: “uma demonstração de por que o Brasil, um gigante econômico e cultural, continua a ser um anão diplomático”.
O distinto embaixador proferiu estas palavras porque a então Presidenta Dilma Rousseff convocou o embaixador do Brasil em Tel Aviv, Henrique Sardinha Pinto, para consultas contra o “uso desproporcional da força” por parte de Israel na Faixa de Gaza durante a Operação “Limiar de Proteção”.
A História já nos dava razão à época. Hoje ela não só nos dá razão, como nos confere o Direito de pedir à Corte Internacional de Justiça, em Haia, a interdição imediata das ações de Israel e dos Estados Unidos. Mas a anarquia da ordem internacional é o imperativo que os EUA rasgam diariamente diante de um mundo impotente; mas o professor Khaled Muhassan sentencia:Esta era já terminou.
Eis a entrevista:
Antes de iniciarmos, em relação ao Irã, o senhor quer deixar algum recado para as famílias iranianas, para os descendentes de iranianos que existem no Brasil? O microfone de Outras Palavras está aberto para ouvi-lo. A palavra é sua Sr. Khaled Muhassan.
Deixe-me te falar uma coisa: o Irã, desde a queda do Reza Pahlavi… A Revolução Iraniana nasceu nos ombros de socialistas, comunistas, nacionalistas e muitos outros subgrupos no Irã; não é somente pelos religiosos iranianos. Desde aquela época até hoje, os Estados Unidos vêm pressionando e cercando o Irã para poder humilhá-lo. O iraniano tem uma paciência muito, muito grande. E eles sabem negociar. Eles nunca te dirão não ou sim; eles vão dizer “vamos ver”…
Essa “negociação” de Trump com os iranianos não é de hoje. E sempre os Estados Unidos perderam. E agora também vão perder. Eu tenho certeza de que esses ataques estadunidense-israelenses ao Irã vão desmoralizar as tropas americanas no Médio Oriente.
O Irã não vai abaixar a cabeça, o Irã não vai perder. Prova disso hoje [sábado, dia 28 de fevereiro/ 17h:15]: o Irã bombardeou e mandou mísseis contra todas as bases americanas no Kuwait, Emirados Árabes, Bahrein, Catar e Doha, eles sentiram. Não é fácil atacar o Irã, não é fácil domar o Irã. O Irã não vai se entregar e não vai baixar a cabeça e vai lutar até o último minuto contra os Estados Unidos da América.
A vida dessas bases militares americanas no Médio Oriente vai ser curta. Logo eles vão se mandar de lá. Porque aquelas bases militares, que estão no Bahrein, Arábia Saudita, Emirados Árabes, Kwait e outros lugares, são alvos fáceis. Não somente para o exército iraniano, mas até para a resistência árabe contra a presença deles. Então, como eu disse antes que 7 de outubro é o início do fim do Estado de Israel, esses ataques ao Irã são o início do fim da existência das tropas americanas e das bases americanas na região do Golfo e do Médio Oriente. E eu falo para os iranianos: tenham orgulho de serem iranianos. Não importa se você é a favor ou contra o governo do Aiatolás. Mas hoje todos vocês e todos nós temos que estar irmanados na luta contra o imperialismo estadunidense e seus aliados, especialmente Israel. É isso.
Eu gostaria que o senhor falasse a partir do seu coração: a questão da Palestina é uma questão dolorosa. Eu, como brasileiro e como historiador e jornalista, reconheço que é uma ferida aberta que tira meu sono e que eu não consigo falar sem um nó na garganta. Me perdoe perder a fleuma, mas eu não consigo falar sem sofrer junto com a Palestina. Gostaria que o senhor nos desse uma palavra sobre a Palestina para os brasileiros que vão ler as suas palavras escritas em Outras Palavras. Em relação à Questão Palestina, sobre a inação do mundo, sobre o silêncio da ONU – ou as palavras vazias da ONU –, por que a China não age mais fortemente? Por que a Rússia não age com maior vigor? Por que a Europa se cala ou pronuncia palavras vazias?
Deixa-me te falar uma coisa. O maior erro que a ONU cometeu, sob o comando de Oswaldo Aranha, foi a criação do Estado de Israel. Esse é o maior erro e a maior traição contra a humanidade: a criação do Estado de Israel. Porque é um Estado sionista, expansionista, racista, sem escrúpulo.
Quando eu assisto ao maior genocídio ao longo dos tempos em Gaza e o mundo em silêncio… Não digo o mundo, porque o povo que foi à rua protestar contra isso e contra o sionismo internacional. Mas quando vejo os países do mundo, os dirigentes do mundo todos em silêncio, eles são coniventes com esse assassinato em massa, com esse crime de guerra.
Eles são coniventes contra a humanidade. Você fala que tem nó na garganta quando fala da Palestina. O meu coração sangra quando eu falo da Palestina. Eu sou libanês, eu estive nas fronteiras da Palestina. Eu conheço aquele norte da Palestina; a alguns quilômetros de distância dava para ver o norte da Palestina.
Eu sei o quanto o povo libanês sulista, o pessoal do sul do Líbano, sofre com a presença israelense, mesmo dentro da fronteira, dentro dos limites da Palestina. Eu sei o quanto o nosso povo sofreu com os ataques israelenses ao Líbano. O meu irmão, em 1982, com a invasão israelense, morreu nessa invasão.
Eu tenho um irmão mártir. Meu coração sangra quando eu falo da Palestina. A causa palestina é a causa da humanidade. Não é do povo árabe nem dos palestinos, mas da humanidade.
Se você conhece bem o sionismo — e tenho certeza de que conhece — quando a gente fala do sionismo, vem meia dúzia de sionistas falar que somos antissemitas. Não! não somos antissemitas. Os árabes também são semitas. Nós somos antissionistas, contra um Estado assassino como o Estado de Israel. Nós somos contra o imperialismo estadunidense e contra o Trump que o sustenta em invadir terras e países. E onde os Estados Unidos vão, só levam droga, arma e destruição. Então nós somos contra esse sionismo e contra o imperialismo.
Não somos contra os semitas, porque nós somos semitas também. Então a Palestina é a causa de todos nós, a causa da humanidade. E vou te dizer: numa entrevista comigo em outubro de 2023, me perguntaram o que eu acho dessa guerra em Gaza. Falei: 7 de outubro é o início do fim do Estado de Israel. Eles falaram: “Você é louco?”. Reafirmei: não! E volto a repetir: 7 de outubro é o início do fim do Estado de Israel! Porque esse Estado vai ser detido! Não vai continuar. Não importa o tempo. Pode ser 5 anos, 10 anos, 2 anos, mas o Povo Palestino vai continuar lutando até reconquistar o seu território do rio ao mar. E eu espero estar vivo para assistir a isso.
Essa operação que está acontecendo agora, chamada Operação Fúria Épica no Irã, é, na sua opinião, o enterro definitivo da ordem de 1945 ou é apenas o desnudamento de uma carcaça que já não abrigava mais direito algum no sistema internacional, na opinião do senhor?
Em minha opinião, aquela organização fundada em 1945 perdeu a sua legitimidade há muito tempo. Desde quando os Estados Unidos e seus aliados atacaram o Iraque de Saddam Hussein. Desde aquela época, ela perdeu — essa organização perdeu — a sua moral, perdeu a sua legitimidade e perdeu o seu sentido até como representante de todos os países do mundo. Quando Trump agora está falando do Conselho da Paz, ele quer substituir a ONU por esse conselho. Porque a ONU, de fato, ela perdeu…, Mas isso não significa que esse conselho maldito que o Trump está falando vá substituir…
[O Board of Peace a que o senhor se refere, não?]
Sim, a ONU perdeu a sua legitimidade, já que ela não consegue impedir nenhum ataque, não consegue impedir nenhuma intervenção. Quais as declarações da ONU quando os Estados Unidos sequestraram Maduro? Ou quando bombardeou o Iraque? Ou quando decidiu destruir um país magnífico como a Líbia? Onde eles estavam quando a Síria estava sendo desmontada. Na verdade, respondendo à tua pergunta, a ONU perdeu a sua legitimidade. Mas, mesmo assim, há condições de reestruturar a ONU e não permitir ao Trump e seus aliados — seus capachos, na verdade, posso dizer — criarem um outro mecanismo.
Tratando sobre a soberania sequestrada agora do Irã, no cenário atual do Sul Global, o senhor acha que ainda reside uma posse física dos recursos naturais desses países ou nós podemos dizer que eles foram totalmente sequestrados pela abstração financeira dessas commodities?
França, Inglaterra — essas duas potências de antiguidade do início do século XIX — eles saquearam a África, saquearam a Ásia e o Médio Oriente, a exemplo do que Portugal e Espanha fizeram na América Latina; eles roubaram as suas riquezas: ouros, prata, pedras preciosas, até as madeiras. Desmataram [todas as Américas] para construir seus palácios na Europa. Mas a natureza se recupera e tudo se renova. Hoje nós temos no Sul Global muita riqueza, e prova disso é essa ganância estadunidense que vem causando ou travando guerras e ameaças de guerras por causa dessas terras raras, como são chamadas, tanto no Brasil quanto na Venezuela, quanto na África, em todos esses lugares. Tem muita riqueza ainda para ser explorada e o imperialismo estadunidense e seus aliados estão atrás disso.
Sobre o fim do dólar como commodity financeira, o senhor acha que a retaliação iraniana contra a Quinta Frota — porque o Irã não se ajoelhou, o Irã retaliou — o senhor acha que isso é uma sinalização do fim da era do dólar enquanto commodity e o nascimento de uma economia de guerra baseada numa urgência de sobrevivência fiscal ou física do Irã que não passe mais pelo dólar?
Sim. O dólar, a médio prazo, vai deixar de ser commodity. Vai deixar de ser a moeda base para o mundo. Sabendo que China, Rússia, Irã, Venezuela estão operando desta forma, no yuan e no rublo — yuan chinês e rublo russo. Inclusive outros países, mesmo aqueles que não são membros efetivos do BRICS, já estão utilizando isso. Por exemplo, os Emirados Árabes Unidos estão comercializando com a China em yuan. Não estão usando mais o dólar. Eu posso arriscar — não tenho o número preciso, mas em torno de 45% da economia mundial hoje já não passa pelo Swift e não utiliza o dólar. Portanto, o dólar, para um futuro próximo — que assim seja, que Oxalá permita — vai deixar de ser aquela moeda de poupança do imperialismo ou a moeda base como referência monetária internacional.
Recentemente nós de Outras Palavras fizemos uma entrevista com o renomado economista Jeffrey Sachs, e ele propôs que 2030 seria o ano limiar da desdolarização do mundo. O senhor gostaria de intuir um ano ou o senhor prefere não predizer o ano em que essa desdolarização aconteceria?
A resistência do dólar diante dos acontecimentos econômicos do mundo hoje é muito grande. Eles vão buscar “n” mecanismos, “n” invasões, “n” acordos, “n” contratos para manter o dólar; se isso dura 3, 4, 5 anos ou 6 anos, eu não sei. Mas espero assistir à explosão do dólar como moeda de referência internacional ainda vivo.
Em relação ao Brasil, como o senhor vê a nossa fragilidade diante dos Estados Unidos como “quintal preferencial” no hemisfério ocidental americano? Como o senhor vê a fragilidade do Brasil em relação aos Estados Unidos? Porventura, se houver alguma resistência do presidente brasileiro ou da diplomacia brasileira, nós corremos algum risco real?
Toda a América Latina corre esse risco. Não somente o Brasil. E, infelizmente, desde a época do [ex-presidente] Fernando Henrique Cardoso, quando a indústria bélica nossa foi desmontada — e mesmo as nossas usinas nucleares de Angra 1 e Angra 2, que poderiam ser atualizadas e modernizadas naquela época para poderem produzir além de energia — todo esse desmonte de indústria bélica deixou o Brasil frágil e dependendo de importação de armas, de blindados e até de carros militares blindados. Dependemos de importação! Realmente o Brasil, belicamente, é frágil. Mas eu aposto, apesar de tudo isso, no patriotismo das Forças Armadas. Porque, queira-se ou não, eles são os guardiões da pátria. E as nossas Forças Armadas, especialmente a nossa Aeronáutica, é muito comprometida com a segurança nacional, com a segurança do território brasileiro. E com o comando de um patriota — pode ser Lula ou outro qualquer presidente patriota que assuma esse país — eu acho que os Estados Unidos pensarão muitas e muitas vezes antes de se aventurarem nesse quintal que eles consideram.
Se o senhor me permite resgatar as memórias de Cadernos do Terceiro Mundo, da Dra. Beatriz Bissio, eu gostaria de fazer uma pergunta: enquanto o Brasil pensa tanto na União Europeia e num conserto diplomático e econômico com aquele bloco econômico, nós não deveríamos pensar num conserto diplomático com o mundo árabe?
O Brasil está bem com o mundo árabe. Se entrar talvez em alguns aplicativos de Câmara de Comércio Árabe-Brasileira e de outros cadernos do Oriente Médio, veremos que a balança comercial entre o Brasil e o mundo árabe cresceu muito nos últimos anos. Desde o primeiro mandato do Lula. Esfriou um pouco na época do Bolsonaro, mas retomou um comércio muito expressivo com todos os países árabes: Líbano, Jordânia, Egito, Emirados Árabes, Arábia Saudita e todos os países árabes. E nós temos recebido aqui no Brasil muitas missões do mundo árabe fazendo negócios aqui, além de aplicações, exploração — inclusive até nos portos. Dubai tem explorado portos aqui no Brasil e, em outras áreas, também outros países estão atuando. O mundo árabe e o Brasil está bem.
Pode melhorar muito? Pode. Mas depende também de que os países árabes que estão comprometidos com os Estados Unidos e a Europa, muitos produtos acabam não conseguindo nem ser importados do Brasil por causa desses contratos que eles têm com as fábricas-mães [matrizes]. Como exemplo, a Gessy Lever: ela tem contratos em todo o Oriente Médio, mas é da origem dela, não é de onde ela fábrica, como o Brasil ou outro lugar. Eu acredito que a preocupação do Lula e do governo brasileiro com a Europa é para se manter um pouco no Ocidente e sem depender totalmente dos Estados Unidos da América.
Eu acho que a política das relações econômicas do governo Lula hoje está bem. Tanto com o mundo árabe quanto na África. Eu acho que a presença brasileira pode voltar a ocupar mais espaço na África. Porque na época do desmonte, depois do Bolsonaro — governo Temer e Bolsonaro, na verdade — diminuiu muito a presença brasileira na África. Essa presença pode voltar. Mas como o Moro [ex-juiz Sergio Moro, hoje senador pelo União Brasil] contribuiu no desmanche da indústria de construção pesada na África, vai demorar um pouco para que haja um novo consórcio, novas empresas brasileiras de grande porte que possam atuar na economia africana. Eu acho que nós precisamos nos preocupar mais com a África, que é um mercado consumidor por excelência, e a troca de mercadorias é importante.
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