O Agente Secreto e a Ciência brasileira no espelho

Título original:
O Oscar sem Nobel: O Agente Secreto e a representação (crítica) da pesquisa científica no Brasil
Às portas da cerimônia do Oscar na Califórnia onde o Brasil pode ganhar mais uma estatueta, falemos da representação da pesquisa científica no filme brasileiro O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho.
O filme tem como personagem principal Marcelo/Armando (Wagner Moura), que é pesquiador, pós-doutor, coordenador de departamento e desenvolve pesquisa sobre carros elétricos, com patente sobre baterias de lítio.
Sem spoilers, mas com um relato mínimo para a compreensão deste texto, o departamento de pesquisa começa a sofrer perseguição quando um conselheiro da Eletrobrás, empresário e aliado ao governo militar (o filme se passa em 1977), visita o programa, critica as pesquisas ali feitas, querendo-as reduzí-la aos “interesses regionais nordestinos”.
Ao lado das mui destacadas exuberantes atuações do elenco do filme (aqui a qual saúdo com representante primeira Tânia Maria), o filme é uma crítica nordestina ao centralismo autoritário sudestino e seu impacto ao desenvolvimento do nordeste e da pesquisa científica no Brasil.
Ainda que o filme se passe em 1977, a crítica de Mendonça Filho é sobre o presente. Não se trata de um filme sobre a ditadura militar, mas sobre a permanência do autoritarismo brasileiro (sudestino). E essa crítica tranpassa toda a cinematogrofia de Mendonça Filho, e já a analisei, no recorte específico de O Som ao Redor1; a persistência simbólica do autoritarismo é trazida em O Agente Secreto na reiteraçao de corte de retratos dos ditadores (Geisel, principalmente).
Mas voltando ao truque do enrendo (o passado narrando o presente), a pesquisa de Armando é sabotada pelo enviado do governo central, porquanto não representa os interesses do capital paulista. O rótulo de “regional” a tudo que é produzido no nordeste é um topoi que nunca deixou de existir. E esse pensamento reduzionista que paralisa, na visão do enrendo, a pesquisa científica nordestina e brasileiro. Veja que Armando é um pesquisador que estuda(va) baterias elétricas, que hoje são centrais na disputa econômica geopolítica. Armando poderia ser um cientista premiado, o Brasil poderia ter uma Tesla ou uma Xiaomi – não as têm, porque há uma mentalidade subulterna (colonizada) que dirige o país.
As arguras que atingiram o departamento de Armando são as mesmas hoje existentes em inúmeros programas de pesquisa do país: ao invés de termos investimento de pesquisas descentralizados, as Universidades do Sudeste ainda concentram boa parte do parco orçamento de pesquisa brasileiro; ao invés do projetarmos pesquisas de ponta, nossos programas concentram em pesquisas basilares, o que acontece tanto pela falta de verba quanto falta de um pensamento emancipatório nacionalista. Sem investimentos e sem pensamento nacional-emancipatório, a pesquisa científica brasileira caminha ainda a passos lentos.
Um exemplo próximo ao enredo do filme e que mostra o atraso (propositado e autoritário) da pesquisa nacional sobre carros elétricos foi falência da empresa nacional Gurgel, que surgiu na década de 70 e faliu devido à abertura (descontrolada) do mercado guiada por um pensamento econômico liberal tacanho. A Gurgel poderia ter sido uma empresa nacional pioneira na fabriçao de veículos elétricos; não o foi porque não houve incentivo governamental.
Essa crítica à falta de incentivo à pesquisa nacional descreve ainda, por exemplo, a paralisação da pesquisa sobre microchips. A CEITEC (Centro Nacional de Tecnologia Eletrônica Avançada) ficou paralisada por anos, por falta de reserva de verbas orçamentárias, e só ganhou novo impulso em 2023.
Nesse período as “autoridades autoritárias” sustentavam o corte tanto sobre o argumento (já cansado) de necessidade de “ajuste fiscal” ou de que, pelas vantagens econômicas comparativas, seria melhor o Brasil continuar investindo em setores ligados à agro-mineração. Enquanto isso, outros países, como Taiwan, com a TSMC investiu pesado na fabricação de chips (wafers) por litografia, com uso da tecnologia de Exposição Ultravioleta Extrema (EUV), que permite desenhar linhas mais finas e complexas nos circuitos integrados. Outros países como China e Coreia do Sul também tem investido na produção de chips, indispensáveis hoje na fabrição de celulares, computadores, carros elétricos entre outros.
Se o processo de pesquisa da produção de wafers do Brasil não tivessse sido descontinuada, como o corte de verbas, poderíamos estar num estado mais avançado na produção de chips nacionais.
Por outro lado, o pensamento colonial também afeta a ciência nacional a partir do olhar do estrangeiro. As pesquisas de Cesar Lattes, por exemplo, sobre o méson pi (píon) poderia ter sido premiada, à comparação a outros pesquisadores estrangeiros com pesquisas simliares.
Nesse final de semana podemos ganhar mais um Oscar, mas estamos ainda longe de ganhar um Nobel. E com essa metáfora queremos afirmar: precisamos investir continuamente em pesquisas nacionais de ponta, guiadas por um projeto nacional consolidado e que não seja um projeto de governo, mas um projeto de Estado.
Notas
1 CORREA GUIMARAES, Pedro Henrique; TÁRREGA, Maria Cristina Vidotte Blanco. O SOM AO REDOR (2012): ECOGRAFIAS JURÍDICAS DO AUTORITARISMO BRASILEIRO: . Revista da Faculdade de Direito da UFG, Goiânia, v. 45, n. 2, 2022. DOI: 10.5216/rfd.v45i2.68891. Disponível em: https://revistas.ufg.br/revfd/article/view/68891. Acesso em: 10 mar. 2026.
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