O capitalismo algorítmico e a subversão possível

Tudo indica, de forma inequívoca, que no Ocidente está a ocorrer uma mudança histórica, cujas consequências alastram-se muito além da área geográfica que costumamos associar àquele nome. Há anos somos testemunhas de uma profunda crise de representação e função das instituições – em diferentes níveis -, assim como dos padrões de produção e reprodução econômica, social e cultural. Trata-se da crise do modelo neoliberal, emergido há cinquenta anos da dissolução do estado social que até então havia caracterizado as sociedades europeias e norte-americanas do pós-guerra.
Entramos numa nova fase do ciclo vital do capitalismo.
Entre os muitos nomes utilizados para descrevê-lo, escolhemos o de capitalismo algorítmico, por nos parecer aquele que melhor dá conta das tensões que o atravessam. Uma das suas características mais evidentes é a concentração de capitais e poder substancial – assim como da capacidade de influenciar uma quota elevadíssima de população mundial – nas mãos dum número ínfimo de pessoas. O contexto geral em que isto acontece é a contínua solicitação do caos e, consequentemente, a queda de qualquer regra que dê a ideia de limites não ultrapassáveis.
É muito difícil encontrar algo de parecido nas fases antecedentes do capitalismo.
Neste modelo, o limiar entre o interesse privado das grandes corporações e a função das instituições públicas torna-se quase imperceptível; as sobreposições e intersecções entre os dois âmbitos estão na base da sua reprodução.
A um nivel “molecular”, a nova fase traduz-se numa diferente relação entre sujeito e as estruturas (sociais, econômicas, jurídico-administrativas, culturais) em que o sujeito se define e onde, ao mesmo tempo, é definido e contido.
O rapidíssimo desenvolvimento e aplicação da IA representa desta mudança um dos pontos de maior força.
Nascem novas infraestruturas – formais e informais – em conjunto com discursos, normas, leis, enunciados que as tornam concretas e “verdadeiras”. Nasce, enfim, um novo dispositivo: este conceito será muito útil para o desenvolvimento do que se pretende discutir aqui.
O objectivo destas páginas não é, porém, apenas tentar uma descrição – mesmo que seja muito parcial – do novo cenário.
Pretendemos esboçar – de forma somente interlocutória – alguns pontos que nos parecem cruciais para vislumbrar uma via de fuga, uma possível rota de colisão, um ato de pirataria, um respiro coletivo sincrônico.
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Queríamos começar pelo segundo nível, o que foi definido molecular. A IA está a assumir cada vez mais uma função indiscutível na constituição do novo ente que – com os filósofos pós-estruturalistas franceses – chamamos de homem-máquina. Trata-se de um ente conotado pela “plena integração entre o indivíduo em carne e osso e as suas prolongações digitais, constituídas pelo conjunto não homogêneo de dados, partilhados na dimensão online”, como escreve Davide Sisto no seu ensaio I confini dell’umano.
O homem-máquina encontra na IA um horizonte propício para ir além das conexões cyborg que o colocam, já a três décadas, num espaço sem fronteiras físicas. Naquele horizonte criam-se as condições para uma relação entre si e o ambiente que o inclui, marcada por novas características.
A externalização de órgãos, funções e memórias para as prolongações digitais tem um impacto sobre a maneira de nos percebermos como sujeitos – ativos e passivos – de conhecimento. Muda, consequentemente, o nosso envolvimento direto na definição do que é verdadeiro, justo, eticamente viável. Em síntese, se a rede tem-nos oferecido, desde os anos noventa, ligações, dados, possibilidade de intrusão em âmbitos que nos eram preclusos até a década antecedente, a IA não só amplifica – vertical e horizontalmente – essa possibilidade de forma incomensurável, mas “altera o locus do poder representacional, isto é, o ponto de vista que organiza todas as perspectivas”, escreve Lucas Vilalta, na apresentação de uma conferência de Kate Crawford.
De outras ferramentas que entraram nas nossas vidas nas décadas passadas sabíamos muito: a base do seu funcionamento, os processos produtivos que as trouxeram às nossas mãos, as lutas travadas pela classe trabalhadora que naqueles produtos entra como “trabalho vivo”. Os estudiosos “operaistas” italianos dos anos sessenta e setenta ensinaram-nos muito acerca da necessidade de termos este tipo de conhecimento.
A natureza da IA e a velocidade brutal com que permeia a nossa maneira de viver entrava a possibilidade de nos confrontarmos com um processo de compreensão – embora básica, superficial e, se for possível, crítica – daquilo que temos à nossa frente.
Isto, porém, não parece representar um problema: a IA aparece logo como uma ferramenta que não é só utilizada para melhorar as prestações individuais, como o computador pessoal, onde este texto é ser digitado. Nasce logo como um ambiente de confiança, onde é possível e agradável viver. O tom divertido e conciliador de qualquer ferramenta da IA faz-nos sentir à vontade em dialogar com um bot. Até chegamos a congratulá-lo — sempre que a resposta contenha uma apreciação para o que estamos digitando.
A capacidade dos sistemas de LLM (Large Language Model) de produzirem dedutivamente diferentes tipos de obras sem basear-se nos processos de treinamento por humanos direto e contínuo tem um impacto avassalador na nossa ideia de uso tradicional das máquinas. O espanto e a surpresa deixam-nos imunes à vontade de conhecer – mais e criticamente – o que se passa.
Quem está interessado na quantidade de energia e agua de que a nossa pergunta necessitou, quanto foram pagos os trabalhadores filipinos, indianos que introduziram bilhões de dados e imagens para treinar a máquina que nos responde? Ou onde e como foram extraídos os minerais que os data centers precisam para funcionar. Ou, ainda, se existe uma qualquer relação entre o tratamento dos nossos dados oferecidos de borla e aqueles usados nas estratégias das corporações especializadas para treinarem as máquinas nas escolhas mortais dos alvos militares.
Há um outro aspecto específico que tem de ser mencionado, pois representa simbolicamente uma mudança que envolve diretamente a parte mais emocional e íntima da vida. Os sites de encontros eróticos e sentimentais dos anos noventa e da primeira década do novo milênio representam a arqueologia do que os chatbots nos oferecem hoje.
No ano 2013, Spike Jonze realizou um belíssimo filme, Her. A história ai narrada parecia – àquela altura – algo bastante longe de se tornar real. Um homem namorava com um bot, uma mulher virtual, chamada Samantha. Doze anos depois, em dezembro de 2025, uma mulher japonesa casou com um bot, um homem virtual cujo perfil ela mesmo criou na ChatGPT. Neste segundo caso, não se trata dum filme.
O que aparece naquela imagem não representa necessariamente o futuro dos casamentos; trata-se duma figura-limite, ou, se quisermos, um exemplo-sintoma. Não importa quantas pessoas se casarão desta forma nos próximos anos; o que importa é mostrar que um limite já foi alcançado, tornou-se possível e, mesmo por isso, ultrapassável.
Voltando a argumentos mais gerais, reparemos como entre a segunda metade dos anos oitenta e primeira dos anos noventa, dois dos mais importantes pensadores do XX século, Deleuze e Guattari, tinham bem claro qual era o rumo que estava marcado.
No novo ente – escreve Deleuze – que nasce após a “morte do homem”, as forças interiores do indivíduo relacionam-se com outras forças do Fora. São as do silício, dos componentes genéticos, dos agramaticais. Essas forças produzem uma certa literatura, a biologia molecular, as máquinas de terceira geração, cibernéticas e informáticas.
Aqui parece estar a grande visão de Deleuze no que diz respeito a algo que ele não tinha experienciado diretamente. O que a IA faz é lançar os três “seres” – o ser da linguagem, o da vida e o do trabalho – na dimensão do finito-illimitado que é a referência do novo sujeito, a que Deleuze chama “superhomem”, no seu ensaio dedicado a Foucault.
Felix Guattari escreveu o roteiro para o que devia ser um filme de ficção científica, cyberpunk, na segunda metade dos anos oitenta, mas que nunca chegou a o ser: Un amour d’UIQ (Universo Infra-Quark), muito bem analisado recentemente por Felice Cimatti.
De um lado, temos uma forma hiperinteligente que transcende as vidas carnais dos humanos – o UIQ – e, doutro lado, os corpos desses, que interagem com a primeira. O resultado é uma combinação maquínica entre os dois entes, onde a subjetividade que aí se constitui “não possui nem delimitações corporais fixas, nem personalidade constante, nem sequer orientação sexual predefinida”.
O filósofo psicanalista francês apresenta aqui uma “carta de amor ao corpo”. Recuperar o corpo com os seus limites, euforias e disforias, significa subtraí-lo, pelo menos parcialmente, ao delírio do agenciamento maquínico enxertado na nova “cosmotécnica” – empregando de forma não ortodoxa a definição utilizada por Yuk Hui em Tecnodiversidade – que está a moldar as nossas vidas.
É um argumento que voltará nas últimas páginas deste texto, pois tem muito a ver com as formas de resistência ao quadro apocalíptico que o capitalismo algorítmico está a definir com crescente clareza e dramaticidade.
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Retomemos o conceito de dispositivo que foi enunciado mais acima e, com isso, o nível mais amplo que, com Deleuze, chamamos de “molar”. Para explicarmos de forma clara a importância deste conceito na economia destas provisórias reflexões, apresentamos a definição dada por Foucault num ensaio incluído em Dits et Écrits. O dispositivo é “um conjunto decisivamente heterogêneo, que inclui discursos, instituições, estruturas arquitetônicas, decisões regulamentares, leis, medidas administrativas, enunciados científicos, filosóficos, morais, propostas filantrópicas […]. O próprio dispositivo é a rede que se pode estabelecer entre estes elementos”.
Parece-nos que, com o início da segunda década do século, esses elementos têm começado a apresentar características que se vão afastando dos ditados do neoliberalismo que marcaram a vida política e econômica na altura da guinada de há cinquenta anos. Hoje, após quinze anos, podemos afirmar que um novo dispositivo define as relações desdobradas em todos os níveis.
Associamos o conjunto de elementos que constituem o dispositivo hoje em dia ativo a dois substantivos que, no nosso entender, condizem com a situação que estamos a vivenciar: caos e guerra.
O capitalismo algorítmico propõe um esquema de operatividade que está cada vez mais definido por linhas circulares que unem os dois termos, produzindo cenários que não parece exagerado definir apocalípticos.
O desenvolvimento da IA fortalece aquele enredo, que se torna cada vez mais evidente por meio de estratégias declaradas e ações levadas a cabo onde não é preciso disfarçar nada. Tudo encontra uma explicação nos enunciados científicos – ou pseudocientíficos – que juntam confiança absoluta na tecnologia, crenças religiosas, diferenças entre seres humanos baseadas no quociente de inteligência. Os principais exponentes da classe vetorialista não abrem mão de qualquer oportunidade para relembrar esses princípios, como afirma Quinn Slobodan.
Christian Marazzi, um dos analistas mais lúcidos e produtivos das transformações do capitalismo, chegou a definir o envolvimento do Estado nas estratégias de desenvolvimento do capitalismo algorítmico como uma renascimento e atualização do “capitalismo de Estado”. Uma leitura totalmente partilhável, que deixa aberta, porém, uma questão. Qual é o futuro do Estado?
As instituições estatais com as quais estamos habituados a lidar parecem ser postas em discussão pelos pensadores mais radicais da nova extrema-direita a nível mundial, mais uma vez com os EUA na primeira linha. Quinn Slobodan, em Capitalismo Destrutivo, identifica esta tendência com fragmetação das entidades estatais e a criação de zonas onde o padrão de desenvolvimento e gestão dos recursos, da produção da riqueza – até da vida dos habitantes – se furta às regras que, de formas diferentes, representam os alicerces da forma-Estado que saiu do Iluminismo.
É nessas zonas que os vetorialistas planejam uma existência que – como se não fosse suficiente a ferocidade do seu protetor – seja livre da ameaça, sempre presente, do “anticristo”, assim como foi definida por Thiel.
O fundador da Palantir vê esta ameaça nos que lutam contra as desigualdades e a favor de medidas sociais em prol das vítimas da onivoridade do sistema econômico que ele promove e que quer empurrar mais para frente. O anticristo de Thiel tem também as feições de quem propõe entraves ecologistas aos desígnios traçados pela vocação que o anima e aos outros vetorialistas.
O dispositivo que surge hoje enquanto rede dos elementos acima listados é direta expressão do “regime de guerra e caos” que gere as relações em escala global. Esta parece-nos a mudança que enfrentamos hoje e que explica tudo o que de abominável estamos vivenciando.
Ao falarmos de caos entendemos a escolha de estratégias baseadas numa modalidade de produção e divulgação contínua e atordoadora de enunciados e imagens, cujo resultado é avaliado nos primeiros minutos após a declaração. Nesta estratégia, tudo pode ser afirmado e ao mesmo tempo negado. Não importa se aquilo que foi dito tem uma correlação com fatos ou não, porque depois de pouquíssimos minutos chega aí uma outra declaração que desvia a atenção da primeira. As consequências dessa estratégia espalham-se vertical e horizontalmente em qualquer âmbito, desde os nossos lugares de trabalho, às relações entre Estados.
A IA favorece esta modalidade de produção comunicativa. As correlações estatísticas substituem a compreensão lógica, gradual; definem percursos cognitivos que apresentam as decisões como objetivas, e mesmo por isso inquestionáveis. Através da IA encontram-se explicações, chaves de leitura, que oferecem uma justificação a tudo o que é levado à frente como objetivamente verdadeiro, ou falso.
Valha só como exemplo a narração sobre a substituição étnica, o maior pavor para uma ampla parte da população europeia, envelhecida, rancorosa e racista. Seja ou não realística, basta apresentá-la, suportando-a com uma pesquisa num chatbot qualquer, e os resultados estão aí.
Por guerra, não entendemos apenas os conflitos bélicos de qualquer forma declarados. Esses são dramáticos, criminais, genocidas (muitos esquecidos ou ignorados), mas não são os únicos. Há guerras implícitas contra o ambiente, contra os povos que reivindicam formas de vida subtraidas às lógicas do capitalismo algorítmico. Há guerras implícitas contra as nações que escolhem um rumo diferente, reivindicando diferentes formas da soberania. Há guerras contra as camadas das populações que defendem espaços sociais e formas produtoras de rendimento auto-geridos e coletivos, ou que defendem o direito a um trabalho digno. Há guerra contra as estruturas do welfare, contra a cultura, contra os pobres, os marginais, as “vidas infames”.
Por outras palavras, onde não há guerra declarada, há uma política que não passa de “guerra conduzida por outros meios”. Elon Musk, respondendo a uma pergunta sobre os inúmeros sem-abrigos nos EUA, não perdeu tempo em rodeios de palavras, definindo-os como drogados, violentos, com doenças mentais graves, que não passam de lixo e como tal têm de ser tratados.
Mesmo à frente de muitas dúvidas levantadas por estudos especializados sobre a escassa aplicabilidade em conflitos bélicos de parâmetros utilizados em tempo de paz para treinar a IA, como é o caso de Sérgio Amadeu da Silveira, o seu uso é massivo. A IA oferece descrições de inimigos, estratégias para atingi-los, quantificação de “danos colaterais” e aceleração da “kill-chain”, ou seja, o tempo necessário para tomar uma decisão.
As consequências em Gaza são ao alcance de todos.
Os programas Lavender e Gospel oferecem exemplos claros e assustadores sobre o uso da IA no massacre de palestinos pelo exército israelita. Lavender escolhe os alvos, com base nas informações adquiridas no treinamento. A rapidez é a sua principal característica, o extermínio de massa a consequência mais visível. “Durante as fases iniciais da guerra, o exército deu aprovação geral para que os oficiais adotassem as listas de alvos a eliminar da Lavender, sem exigência de verificação minuciosa”. “O exército israelita atacou sistematicamente os indivíduos visados enquanto estes se encontravam nas suas casas — geralmente à noite, quando toda a família estava presente […]. Segundo as fontes, isto acontecia porque, do ponto de vista do que consideravam ser a inteligência, era mais fácil localizar os indivíduos nas suas residências privadas”. Estes trechos são contidos no relatório de Yval Abraham sobre o uso e os efeitos de Lavender e de outras ferramentas de IA pelo exército israelita em Gaza.
Neste sentido, Gaza marcou o limiar entre um antes e um depois. Com Gaza, ficou claro que qualquer ação, até as mais brutais e conturbadoras, não precisa de explicações ou desculpas. Com Gaza, acabou de vez a distinção historicamente aceite entre alvos militares e população civil, e com essa acabou qualquer referência ao direito internacional.
A guerra não tem contornos, nem um início e um fim, porque – como está a tornar-se evidente com sempre maior força – a guerra deixou de ser uma condição de exeção. Antes disso, assume uma posição central nas relações internacionais e nacionais, assim como na definição dos programas económicos dos principais países do Ocidente, e não só.
O uso da força – material ou imaterial -, da retaliação, da chantagem, da ameaça em qualquer situação considerada útil, nem precisam de ser disfarçadas. A sua aceitação intersecciona e junta países aparentemente afastados por orientação política, assim como diferentes setores das sociedades civis.
Mas, felizmente, há sempre quem resiste.
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“Onde há poder, há resistência”. A resistência “nunca está em posição de exterioridade em relação ao poder”. As resistências têm de ser consideradas ao plural: essas são “possíveis, necessárias, improváveis, espontâneas, selvagens, solitárias, concertadas, rasteiras, violentas, irreconciliáveis, prontas ao compromisso, interessadas ou fadadas ao sacrifício”.
Assumamos que o cenário das relações de poder em que estamos envolvidos consta dos pontos que temos apresentado até agora. Cada um de nós poderia fazer um rol – uns mais longo, outros menos – de situações que julgue apresentem uma ou mais das características de resistência descritas por Foucault em “A Vontade de saber”.
A questão maior continua a ser a mesma que atravessa os debates à esquerda há décadas. O quão elevado é o impacto de cada uma das resistências elencadas, não apenas no que respeita ao específico âmbito de sua referência, mas sim na construção e representação simbólica de outros possíveis.
Em cada ato de resistência há um processo de subjetivação, com características que mudam duma resistência para outra, e em escalas diferentes. Quais articulações, ressonâncias se podem captar, favorecer, desenvolver entre subjetividades diferentes é uma questão tratada por variadas abordagens. Alimenta uma discussão que existe desde que se tornou claro que não há mais um sujeito único, à volta do qual construir o processo que nos levará a um futuro resplandecente.
Resistências e conflitos atravessam as sociedades sem terem um rumo único. Tomam, antes, formas, tempos e direções variáveis, a condizer com as emergências que surgem nos demais âmbitos onde aparece uma ameaça, uma injustiça, um valor a defender, ou a conquistar.
Tendo em conta a fragmentação à escala global dos processos de valorização do capital, a primeira coisa que nos parece evidente é que o encadeamento das resistências – atuadas por sujeitos diferentes – produz maiores efeitos na medida em que se articula naquela escala.
Isto conduz-nos a assuntos importantes.
Em primeiro lugar, a visibilidade das ações e a capacidade de intervir nos pontos sensíveis da organização do sistema que chamamos capitalismo algorítmico. Os estivadores do porto de Gênova e os povos indígenas da Amazônia agem com meios, modalidades e objetivos diferentes, assim como são diferentes em relação àqueles utilizados por um hacker que trabalha numa plataforma qualquer, ou pelos armazenistas da Amazon.
Estes quatro exemplos de sujeito produzem atos de resistência, cuja visibilidade e relevância estratégica são ditadas por múltiplos fatores. A sua colocação ao longo de cadeias de produção de valor torna as resistências e os conflitos emergências de elementos de ruptura política. Aqueles atos problematizam por dentro a ordem global que os inclui, a partir das suas fissuras e contradições.
As condições para transformar o poder expresso pela polifonia de vozes e ações resistentes em potência subversiva alicerçam-se em questões essenciais e complexas. Duas, em particular, são brevemente argumentadas nesta parte final do texto.
A primeira tem a ver com uma definição das ações em si, que nos ajude a abarcar a sua multiplicidade de que somos – direta ou indiretamente – testemunhas.
Retomemos os quatro exemplos de antes, aos quais poderíamos acrescentar outros que estão quotidianamente diante dos nossos olhos, como os comitês de cidadãos contra o despejo de inquilinos, ou para defender espaços sociais comuns.
Se encararmos aquelas lutas como pontos – implícita ou explicitamente – interligados, não será suficiente defini-las espontâneas, coletivas, auto-organizadas. Como sugere Rodrigo Nunes em Nem horizontal nem vertical (2023), o termo melhor para descrevê-las é o de ações distribuídas, pois há algo que, de qualquer maneira, as unem. Distribuída não é sinónimo de solta.
Um conceito simples de estatística ajuda-nos a representar a distribuição das ações. As ações distribuídas são tais em função duma linha, em relação a qual os pontos (as ações) resultam dispersos, com maior ou menor distância. A sua representação gráfica é um diagrama de dispersão, com os “pontos de resistência” a distribuírem-se em redor duma linha, que, neste caso, poderíamos definir como a tendência – num momento e num espaço específico – das ações contra o biopoder do capitalismo algorítmico.
Os pontos variam, tanto na posição no diagrama, como em número. Em consequência disso, muda a inclinação da linha, define um devir que não é constante e previsível – ao contrário do que acreditam ainda hoje os seguidores duma ortodoxia marxista sobre o único sujeito revolucionário.
Querendo utilizar a terminologia de Laclau, poderíamos chamar aquela linha “significante vazio”: não pertence diretamente e exclusivamente a nenhum dos pontos, mas cada um mantém uma relação, mais ou menos estreita, com ela. Maior o número de pontos de resistência e a sua proximidade com a linha, maior a intensidade e a potência em si da própria linha.
O segundo elemento – relacionado com o primeiro – tem a ver com a questão da organização. Os pontos daquela dispersão podem produzir efeitos locais, circunscritos, valiosos e bem relacionados com outros. O problema, de longa data, é como desencadear processos de consolidação e multiplicação que tornem aqueles efeitos um ponto de guinada, do qual não se volta atrás. As experiências na maioria dos países do mundo mostram como aquela perspectiva está longe de ser facilmente alcançável.
Sendo a escala global a única de que hoje faz sentido falar, o padrão organizacional também tem de condizer com aquela escala. Isto significa que não existe o modelo ideal, que pode ser exportado ou importado, como acontecia há décadas com a forma-partido. Cada ação localmente contextualizada tem de encontrar o seu posicionamento numa “rede de trabalhos” (worknet), mais do que num trabalho de rede (network), segundo a feliz distinção dada por Bruno Latour. O que é central não é a estrutura da rede em si, mas, sim, a capacidade dos trabalhos de produzir conexões de rede, que vão além da imediata identificação do que é contíguo.
A este respeito, a sugestão de Nunes no ensaio acima referido é bastante clara. Não faz sentido pensar em termos de organizações individuais, mas, antes disso, conceber a organização “como uma ecologia distribuída de relações que atravessam e reúnem diferentes formas de ação”. Ou, em termos ainda mais claros, “uma rede não totalizável, composta de inúmeras redes, uma ecologia de rede em constante evolução” (205).
Ações distribuídas e ecologia da organização produzem uma tensão produtiva, baseada na valorização de especificidades e diversidades, no seio duma lógica de funcionamento rizomática. Uma tensão que amplia o número de nós, subindo e descendo ao longo das cadeias de abastecimento. Uma tensão, enfim, que define novos objetivos, sempre que se dão as condições, redesenhando e favorecendo as conexões entre novos e velhos sujeitos resistentes.
A experiência da luta dos estivadores contra a guerra e o manuseamento de qualquer tipo de mercadoria com ela relacionada ensina-nos muito.
Travada pelo estivadores de Gênova em 2019, chegou, em 2026, a assumir uma dimensão internacional, e internacionalista. Ao longo desses sete anos, a “linha” – como foi definida acima – ganhou um rumo bastante claro e favoreceu o alastramento das iniciativas para todo o tecido social da cidade.
Em 2025 essas mobilizações chegaram, com a solidariedade à Palestina, a ter uma dimensão inusitada. Houve muitas ocupações de escolas e da universidade, os centros sociais organizaram debates sobre o significado do “regime de guerra”, alguns partidos políticos menores da esquerda e o sindicato de base USB ampliaram ainda mais a leitura da fase atual, envolvendo outros sujeitos, principalmente na lógistica. Até o conselho municipal da cidade de Gênova tomou uma posição clara contra o tráfego de armas no porto. Muitos artistas ofereceram-se para apoiar a luta com as sua obras. Uma organização de voluntariado recolheu cerca de 400 toneladas de produtos a enviar para a Palestina, em concomitância com a missão da “Global Sumud Flotilla”.
O eco internacional foi enorme: na greve geral proclamada pelo estivadores em novembro do 2025, estiveram em Génova Greta Thunberg, Yanis Varoufakis, Chris Hedges e os rabinos nova-iorquinos opositores à ocupação da Palestina.
O passo seguinte foi em fevereiro do 2026, com a proclamação duma greve internacional. Aderiram os trabalhadores de mais de vinte cidades europeias e mediterrâneas. A manifestação em Gênova teve a participação e foi parcialmente liderada por Chris Smalls, o trabalhador da Amazon de Staten Island que organizou o primeiro sindicato dentro de uma das unidades estadunidenses daquela empresa.
Cada escola, universidade, centro social, até chegar às organizações de trabalhadores de outras cidades, escolheu autonomamente a forma de se juntar àquela luta, ou, para melhor dizer, de fazer daquela luta a própria luta. Houve discussões coletivas – em salas repletas de gente – onde cada representante dum dos “pontos” explicava a maneira de levar a cabo a própria resistência.
Em suma, ações distribuídas que mostram uma atitude a contar com lideranças igualmente distribuídas. Como sedimentar, ampliar e fortalecer esses worknet de experiências de luta é uma questão longe de ser suficientemente analisada. Não obstante isso, parece-nos que aquela lógica de ação e organizacional represente hoje o único rumo viável.
Isto faz-nos voltar, de forma interlocutória, ao assunto com que começou este texto.
Se aceitarmos que o nosso presente está marcado pela emergência duma nova ordem mundial que chamamos capitalismo algorítmico – com a produção de guerra e caos e baseado na lógica do conectivismo entre homem e máquina – quais desafios temos à nossa frente, em termos de ações e da sua organização?
Ou, dito de outras formas, como construir as conexões com aqueles segmentos da cadeia indispensáveis para que o conflito seja levado lá, onde o capital ganha maior força, isto é, onde produz informação abstrata, por meio da apropriação da cooperação social em escala global?
Essas questões, que não passam de dúvidas, sobre as quais o debate está, felizmente, vivo e aberto, foram já apresentadas num outro artigo. Aí, foram também discutidas as possibilidades de promover o uso e a função de internet em chave democrática, assim como as descrevem muitos estudiosos.
Isso nada subtrai à urgência de produzirmos nós as conexões de que precisamos, entre lutas fisicamente visíveis e lutas digitalmente vivíveis. Sem essas conexões, os nossos atos de pirataria não nos levarão ao tesouro mais importante, aquele para o qual ainda vale a pena viver.
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