O velhinho de Taubaté – Ou de como se perde o brilho no olhar

Dizem que o Velhinho de Taubaté acredita em tudo.
Acredita em ata.
Acredita em grupo de trabalho.
Acredita em eixo temático.
Acredita em consolidação democrática.
O problema é que o Velhinho já tem 72 anos.
E o brilho do olhar já não é o mesmo.
Durante vinte anos ele percorreu fóruns, Teias, encontros estaduais, conferências municipais e plenárias vinculadas ao Sistema Nacional de Cultura. Do interior paulista às capitais, atravessando o Estado de São Paulo e o Brasil.
Sentou em cadeiras de plástico.
Falou em microfones falhando.
Redigiu propostas madrugada adentro.
Defendeu moções com voz firme e esperança juvenil.
Juvenil — mesmo depois dos cinquenta.
Juvenil — mesmo depois dos sessenta.
Porque a cultura faz a gente acreditar que ainda dá tempo.
Mas aos 72, o Velhinho percebeu que o tempo passa — e o método permanece.
O ritual é impecável.
O Ministério da Cultura convoca.
Os estados organizam.
Os municípios mobilizam.
Os militantes comparecem.
Divide-se em grupos.
Produzem-se relatórios robustos.
Aprova-se em plenária.
Fotografa-se o momento.
E no final, um pequeno núcleo “harmoniza”.
Harmoniza.
Palavra elegante.
Significa ajustar ao que já era considerado possível antes mesmo da primeira fala da base.
O Velhinho começou a perceber que há uma democracia que escuta — mas não necessariamente decide junto.
Escuta com atenção.
Registra com cuidado.
Mas consolida com filtro.
E quando alguém questiona, surge a frase pronta: “Precisamos ser realistas.”
O Velhinho aprendeu que “realismo” é muitas vezes o nome formal da contenção.
O desencantamento não veio de uma derrota isolada.
Veio da repetição.
Da sensação de que, independentemente do esforço, o desfecho sempre cabe dentro de limites já traçados por poucos.
Veio da percepção de que:
• A ousadia é bem-vinda — até ameaçar orçamento.
• A divergência é respeitada — até tensionar o centro.
• A participação é celebrada — até precisar ser vinculante.
E então o brilho vai se apagando.
Não por falta de amor.
Mas por excesso de déjà vu.
Há muitos velhinhos assim no Estado de São Paulo.
E no Brasil inteiro.
Gente que dedicou a vida à cultura popular, à memória, aos Pontos de Cultura, às redes comunitárias invisíveis que sustentam o país real.
Gente que acreditou que o Sistema Nacional de Cultura seria o grande salto democrático.
Hoje, muitos estão cansados.
Não desistiram da cultura.
Desistiram da forma repetitiva que promete decisão compartilhada — mas entrega decisão concentrada.
E é aqui que alguém precisa colocar o dedo na ferida.
E torcer.
Para que sintam.
Porque essa dor não é apenas administrativa.
É simbólica.
É a dor de envelhecer dentro de um processo que não amadureceu.
É a dor de perceber que, depois de duas décadas, ainda participamos mais da construção do discurso do que da decisão final.
O Velhinho de Taubaté não quer destruir o sistema.
Quer que ele cresça.
Quer transparência radical.
Quer que cada proposta rejeitada venha acompanhada de justificativa pública.
Quer que a deliberação da base tenha peso real.
Quer que democracia cultural não seja apenas rito — mas poder compartilhado.
Aos 72 anos, o Velhinho ainda acredita.
Mas acredita com ironia.
E aprendeu que, às vezes, amar a cultura é dizer o que dói.
Estamos cansados de participar sem decidir.
O brilho no olhar não se perde de uma vez.
Ele se apaga aos poucos.
E quando alguém resolve colocar o dedo na ferida, não é para destruir.
É para ver se ainda há sangue correndo.
Porque enquanto houver sangue — ainda há vida.
MARIO JEFFERSON LEITE MELO
O atual Velhinho de Taubaté — ainda um ATIVISTA CULTURAL.
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