Sem Chão e a política do impossível

No documentário No Other Land, dirigido por Basel Adra, Yuval Abraham, Hamdan Ballal e Rachel Szor, há uma cena que cristaliza uma sugestiva reflexão política:
Basel e Yuval estão no carro à noite. Terminam o dia após uma manifestação que exigia justiça para Harun Abu Aram, alvejado à queima-roupa pelo exército israelense enquanto tentava proteger o gerador de energia da sua comunidade em Masafer Yatta, na Cisjordânia. Tiro que o deixou tetraplégico. Yuval, israelense antissionista, está decepcionado e conta ao amigo:
– O artigo que escrevi sobre a mãe do Harun não teve muitas visualizações.
– É sempre assim. Você está…
– O quê?
– Está um pouco entusiasmado.
Yuval desconcertado parece não entender imediatamente. Com o sorriso dos que falam uma verdade óbvia, Basel lhe explica que a ocupação não vai se desfazer em 10 dias. Ela e, portanto, as arbitrariedades e agressões dos sionistas, perduram há décadas:
– É algo que requer paciência. Acostume-se ao fracasso, perdedor.
Não são palavras de quem aceitou a derrota. Noutro dia e de novo, sempre que uma aldeia está sob ameaça de demolição pelas forças invasoras de Israel, Basel está lá, câmera nas mãos, sem medo. Sempre que a comunidade se reúne em manifestação, ele está lá, sem descanso. A derrota certa não inspira qualquer resignação. Seu pai lutou naquela terra e ainda luta. Nasceu ali e vai morrer ali também. Foi preso ao longo das filmagens, mais uma vez, e regressou mais tarde, íntegro e disposto ao amanhã que virá. A derrota é certa só até que não seja mais. Até lá, a paciência dos que não se dobram.
Basel é quase incompreensível para nós. A paciência inabalável, de fato, é a de quem não tem escolha. Yuval é solidário, se expõe e corre riscos, mas pode sempre que preciso retornar para a casa. Basel está sob invasão, habita o conflito. Na paciência de Basel não repousa nenhuma imagem de redenção messiânica. Não há a decisão das utopias ou visão de mundo. Basel luta porque senão amanhã eles não estarão mais ali, na terra. Luta porque outros já não estão. E é exatamente por isso que ele encarna uma temporalidade que transcende o agora desta manifestação ou daquele artigo, e também o desta vida. Talvez ele não veja o fim da ocupação, seus avós não viram. Outros verão. Disso ele parece não duvidar nunca. A política em Basel carrega a força quieta da crença.
Já a maioria de nós é iluminista demais. Só nos dedicamos ao que é ao menos provável. A crença foi esconjurada como mito e no seu lugar exaltamos o entendimento. A razão instrumental opera para identificar as causas e fornecer o remédio. Com esses aparatos todos, nos qualificamos a gestores do mundo que está aí. Será possível mudá-lo sem algum tipo de crença? A política, em sentido forte, não supõe um resto indemonstrável, algo irracional? Destituídos dos nossos mitos e utopias, absolutamente nus diante da nossa razão, podemos tudo e por isso mesmo nunca fomos tão impotentes. Perdemos nossa teologia, como diagnosticou Vladimir Safatle. O socialismo sempre foi a nossa teologia. Sem esse horizonte, estaremos mais próximos de Yuval, aquele que pode simplesmente voltar para casa.
Mas podemos mesmo voltar para casa? A catástrofe distendida do colapso climático não oferece refúgio. O momento de perigo se desdobrou e coincidiu com o próprio tempo. Não temos para onde ir. Ainda assim, nos falta a crença paciente de Basel. Ele vê e disputa palmos com quem quer lhes tomar a terra. Por isso pode perguntar aos soldados israelenses se eles também não têm mães e irmãos, se não moram numa casa, se conseguem dormir à noite. A abstração do capital que nos empurra ao abismo está por toda a parte e não está em lugar algum. A dominação impessoal do capital impregnou inclusive a matéria. A nuvem e o virtual deslocaram o ódio de classe, usurparam seu objeto. O motorista de Uber sabe que é inútil odiar um aplicativo. O capital não tem mãe e irmãos. Ele não dorme à noite. O drama é que continuaremos sem casa para voltar.
Basel, contudo, não deixa de lembrar um passado que é o nosso, da esquerda socialista. A fresta do presente por onde a qualquer momento poderia passar o messias benjaminiano, a revolução que haveria de rebentar num segundo, era a nossa. Dela dependia o descanso dos vivos e dos mortos. Também aqui a revolução era um compromisso dos que ainda sofrem com os que sofreram, mais do que impulso movido por imagens redimidas do futuro. O passado se revela no instante do perigo e está em jogo toda a história da humanidade.
Mesmo Adorno, que numa leitura rápida e superficial aparece como catastrofista resignado, mantinha o momento da não identidade à espreita, pronto para implodir a praça-forte da falsa totalidade. A abstração da troca, sob a pulsão do capital feito sujeito, impôs a todos a obrigação de participar da roda da valorização, a despeito de serem ou não movidos por um afã de lucro. No processo subordinou a si as palavras e as coisas. É então quando tudo foi aparentemente subsumido ao capital que o perigo se torna crescente e pervasivo, porque quanto mais forte, mais sobras a falsa totalidade deixa atrás e por debaixo. E essas sobras carregam um nome: sofrimento. As sobras da falsa totalidade também devem se chamar alegria. Todo dia à noite a família de Basel se reúne em torno da comida, compartilha suas esperanças, fala das dores e, apesar da ameaça sem fim, sorri.
A recusa de Adorno em se agarrar a qualquer negatividade de contrabando se ancorava na crença de que ela permanecia viva e secretamente possível. A nossa crença era a do largo horizonte. Ela se abria até o que o velho Marx chamou de reino da liberdade, o fim da pré-história da humanidade.
Basel ganhou um Oscar. Algo impossível até acontecer. A visibilidade que daí adveio, no entanto, não impediu que sua casa fosse invadida e um de seus companheiros de direção, Hamdan Ballal, fosse sequestrado e torturado por colonos israelenses. O Oscar, de fato, nunca foi o impossível com qual Basel lidou. Por isso a luta continua. Até o fim.
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